Dívidas altas, inadimplência, demissões… Brasil pode ter “bolha automobilística”

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SÃO PAULO – Embora muito se tenha falado da existência de uma bolha imobiliária no Brasil, um dos perigos verdadeiros que a economia pode sofrer é na verdade, uma bolha automobilística. Muito menos nociva que a sua prima, a bolha dos carros já começa a se desenhar no Brasil, com uma desaceleração do mercado que já faz as principais montadores dispensarem milhares de trabalhadores.

Além disso, alguns indicadores começam a preocupar: o estoque das montadoras já é de 48 dias, contra 30 dias usuais. O crédito para a compra de automóveis também recuou, mas não por decisão dos bancos – já que a inadimplência está em queda, depois de bater recordes nos últimos anos. No mercado atual, não parece faltar oferta. Falta demanda.

“Nesses últimos anos em que o crédito ao consumo ficou mais acessível, o carro foi um dos ‘campeões’ do endividamento, em parte pela nossa necessidade de status, em parte pela precariedade do transporte público na maioria das cidades brasileiras”, afirma André Massaro, educador financeiro e participante do programa TopMoney. Esse modelo, porém, está próximo do final e já mostra sinais de exaustão tão grandes que começa a implodir a própria indústria do automóvel.

Ele lembra que o brasileiro costuma ter uma relação bastante afetiva com o carro. “Durante muito tempo fomos educados a tratar carro como se fosse um ‘investimento’, uma reserva de valor, e não um bem de consumo”, salienta. Mas o carro é absolutamente perecível: só de tirar da concessionária que um carro novo perde 30% do valor. Além disso, com o uso vem problemas mecânicos que tiram valor do automóvel.

Subprime Pacheco O brasileiro continua se endividando para consumir carros – o que pode ser chamado de “bolha automobilística”. Muito menos nociva do que uma bolha imobiliária, mas com a possibilidade de atingir em cheio essa indústria e as cidades que são fortemente ligadas à ela, como São Bernardo do Campo, em São Paulo, ou Betim, em Minas Gerais.

Não são apenas os carros novos que estão expostos à esse tipo de questão, os velhos também. Massaro ressalta que isso criou o “subprime Pacheco”, cujo nome se refere aos carros Passat, Chevette e Corcel, que apesar de velhos – apenas o Passat tem uma versão moderna – continuam sendo populares nas regiões mais pobres do Brasil. “Esse nome se refere aos financiamentos que eram dados para compra de carros usados, muitas vezes para pessoas com histórico de crédito ruim”, destaca.

Mesmo assim, são os carros novos que geraram a suposta bolha e preocupam o mercado atualmente, mesmo que tenham sido comprados por pessoas de histórico de crédito exemplar. “Uma brincadeira comum envolvendo carros é o ‘é velho mas tá pago’, insinuando que a maioria dos carros novos que circulam nas ruas foram comprados graças à financiamentos”, diz o educador.

Mercado em crise Muitas pessoas correram para adquirir seus primeiros automóveis através de financiamentos a se perder de vista e sem condição de mantê-los, gerando uma grande euforia no mercado – afinal, a classe C emergia e a expectativa era de muitos carros ainda a serem vendidos. A desaceleração da economia após a crise do subprime e as subsquentes reduções do IPI (Imposto por Produto Industrializado) só ajudaram a acelerar esse efeito.

Nesse cenário, fábricas foram inauguradas, cadeias foram formadas. No auge da euforia, como a japonesa Nissan e a chinesa Chery, para citar duas montadoras, instalaram novas indústrias no Brasil, que só foram recentemente inauguradas. Outras diversas montadoras aumentaram suas próprias fábricas e fizeram investimentos que é capaz de não serem pagos em um futuro próximo. Tudo para disputar um mercado que, naquela época, parecia muito interessante.

“A indústria embarcou na euforia do crescimento do mercado, apostando, como muitos fazem, que o mercado ia ‘crescer para sempre’. Mas o mercado não cresceu”, alerta. Para um setor tão importante quanto o automobilístico, há um grande efeito em toda a economia – afinal, são milhares de empregos que ela cria, diretamente e indiretamente. Algumas das cidades com melhor qualidade de vida no Brasil são fortemente ligadas à essa indústria.

Quem perde é você Com essa importância, o mais provável é que o forte lobby das montadoras recorre a ajuda do governo, que já sinalizou novas medidas para ajudar o setor – e deve promulgá-las em breve. “O governo usualmente cede na forma de incentivos fiscais e medidas protecionistas, quem perde com isso?”, indaga Massaro.

Para ele, a resposta da sua pergunta é simples: você. “O grande perdedor, de fato, é o contribuinte, pois ele sempre acaba colaborando (muitas vezes sem saber) com ações de “salvamento” de certos setores e indústrias, via incentivos e isenções fiscais”, destaca. É um cenário que também impacta os vendedores e distribuidores desses automóveis, pela desaceleração do mercado.

Há a possibilidade também dos trabalhadores das montadoras também serem demitidos – principalmente os que foram contratados para lidar com a demanda aquecida -, mas isso é menos provável. “Eles têm sindicatos fortes e a ajuda governamental é muitas vezes vinculada a proteção desses empregos”, salienta. Mesmo assim, caso as demissões ocorram, não demora para que o efeito seja sentido por todos, principalmente em um salto da inadimplência.

Queda no preço Se há um ponto a se ressaltar na bolha é a possibilidade de que os carros fiquem mais acessíveis para se livrar dos estoques. “Provavelmente teremos uma série de promoções, descontos e campanhas de vendas, mas é pouco provável que haja uma redução nominal nos preços dos veículos”, acredita Massaro.

Mesmo com essa campanha, ele não vê motivos para ser otimista com esse setor, já que as perspectivas não são promissoras. “Parece que nosso mercado interno já chegou no limite de sua capacidade de absorção. Os veículos brasileiros não são competitivos no mercado externo e, ainda que o fossem, o mercado mundial de veículos, talvez com exceção da China, não tem sido dos melhores nos últimos anos”, termina.

Fonte: InfoMoney

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